Espiritualmente, indivíduos mais sensíveis, realmente comprometidos com a causa filantrópica e os princípios de amor e solidariedade, encontram maior conforto em sua divindade de culto em momentos de extrema dificuldade, perdas, caos e tristeza. Convém ressaltar que possuir uma religião na qual se alicerçar não é garantia de vida perfeita ou isenção dos ônus advindos da empreitada existencial; contudo, tal feito consiste em sempre estar ciente de que há onde se agarrar em meio às enchentes e intempéries da vivência à qual todos, independentemente da convicção adquirida, estão submetidos.
A dor, como bem ressaltou Divaldo Franco, numa acalorada entrevista ao Programa do Jô, “é um convite ao amadurecimento”; um chamado a se autoavaliar, a se tornar alguém melhor no que concerne à personalidade e à essência, após a travessia de momentos dessa natureza. A canalhice, o “bom jeitinho”, a malandragem e a apropriação da fraqueza alheia para alavancar causas pessoais são sintomas terminais de uma sociedade enferma. É necessário que sejamos nós a diferença tanto reclamada; crer que, mesmo em meio ao pecado e ao caos, às imperfeições e predisposições negativas, é possível aspirar lidas melhores, como afirma Samwise, personagem de O Senhor dos Anéis: “ainda há algo de bom neste mundo, e vale a pena lutar por isso”. Ele enfatiza que, mesmo na escuridão, pequenos atos de bondade e amor mantêm a esperança viva. Não esperemos. Sejamos essa esperança.
A neurociência, em seu vasto rol de informações, já comprova que praticar o bem é um ótimo subterfúgio para, aliado a outros hábitos, combater a depressão. Isso porque, ao estender a mão ao semelhante, por um momento suspende-se nossa pretensão egoísta de ser; nossas murmurações — termo que denuncia práticas queixosas e reclamações ininterruptas — passam a ser anuladas quando o foco é o outro. Ser empático, reconhecendo a dor alheia, sem medo de abrir os ouvidos e os braços para quem chora uma perda material ou pessoal, não é sinal de fraqueza, muito menos de insalubridade: é humano. É resgatar aquilo de mais profundo, perdido e assolado em meio à busca compulsória por resultados e vitórias. Pessoas munidas de uma inteligência emocional bem amparada e trabalhada são indivíduos resilientes, maduros e fortes; todavia, jamais se curvam ou se calam frente às indiferenças e abusos cometidos contra os menos favorecidos. Tirar vantagem da dor alheia é o sinal último de que alguém há muito já desfaleceu no que diz respeito à empatia e ao respeito ao semelhante.
O cristianismo, quando em sua essência pura e cristalina — espelho que reflete o caráter de Cristo e seus ensinamentos, sem a máscara do fanatismo ou a pele de lobo que reveste diversos líderes — é um movimento de grande valia para o mundo que chora em meio às amargas tragédias e conflitos, estes gerados pelo ego de grandes chefes, fazendo sangrar aqueles que anseiam apenas paz e tranquilidade para construir suas vidas. Os inocentes, mais pobres e em estado de vulnerabilidade — massa ignara que sufoca em meio a escândalos, privada de liberdade e compreensão — são a jugular alvejada pelo punhal da tirania que os sangra sem piedade ou remorso. É preciso viver aquilo que tanto se prega nas redes, nos púlpitos, nos altares, nas mesquitas e nos epicentros sagrados: a paz, o amor e a solidariedade. Negligenciada uma dessas virtudes, todo o resto perde o sentido, haja vista que, semelhante a um organismo vivo, não funcionam de forma separada, mas no conjunto de suas funções.
Com tristeza no olhar, assisto a ensinamentos tão caros à humanidade serem manchados pela arrogância e ganância de muitos — aqueles que deveriam ser os precursores da moral, o baluarte dos bons comportamentos, a reger e ensinar seus subordinados a seguir a luz do evangelho, praticando-o diariamente em seu íntimo real. No entanto, ao fazer da fé um instrumento de manipulação e controle, cria-se uma multidão de cegos, presos em ilusões cavernais, em vez de seres espiritualizados prontos a atuar à luz do verdadeiro evangelho.
O ego é a raiz de todo mal. A ganância é o cerne de toda desgraça, e o poder, o combustível mor que os alimenta.
Respostas de 2
Seu texto traz uma reflexão muito sensível e necessária sobre espiritualidade, empatia e responsabilidade humana. A forma como você conecta fé, amadurecimento diante da dor e consciência social demonstra uma visão profunda sobre o papel do ser humano no mundo. É especialmente marcante a ideia de que a espiritualidade não nos isenta das dificuldades, mas nos oferece um ponto de apoio para enfrentá-las com mais consciência e humanidade. Também é muito forte a crítica ao egoísmo e à manipulação da fé, algo que infelizmente ainda vemos com frequência. Textos como o seu convidam o leitor a olhar para dentro de si e repensar atitudes, lembrando que pequenas ações de bondade e empatia podem transformar realidades. Parabéns pela sensibilidade e pela coragem de abordar temas tão importantes de forma tão reflexiva.
Gratidão pela visita e pelo comentário 🫀