Vida de Gado

Moro e habito aqui na roça,
E quem conhece minha história,
Respeita-me bem como eu sou.

Aqui tenho tudo que alguém precisa:
Tenho alegrias; tenho paz;
E aquele antigo sentimento que faz
O coração bater mais forte.

Vivo, e com todo orgulho:
Onde o sol castiga a terra,
Onde o tempo não tem pressa,
Onde aprendi a colher e a plantar.

Pois essa terra tem riquezas,
Tem tranquilidade e tem belezas,
Um cantinho que do céu se desprendeu.

Tenho aqui meu pobre gado,
Sofrido e maltratado,
E minha velha junta de bois.
Que trabalhou a vida inteira,
Sem receber nenhum tostão,
Que não revogaram direitos,
Nem expuseram uma opinião,
Debaixo do árduo sol quente,
Muitas vezes, sem compaixão.
Essa é a vida deste meu gado,
Que tem aqui no meu sertão.

Puxam o carro de boi,
Pela velha estrada estreita,
Pela esquerda, pela direita,
Vão Gaúcho e Coração.
Meus bois que eu mesmo dei nome,
Que conheço desde menininho,
Que não têm maldade,
Nem guardam rancor.
Meus verdadeiros amigos,
Que digo com todo amor,
São minha alegria de viver,
Meus bichos de estimação.

(parte II)

É mesmo dura a lida aqui,
Acordamos desde cedo,
Para fazer a poeira da terra subir.
Do outro lado vejo
O velho casal de lavradores,
Que carpem a terra com a enxada,
Debaixo deste sol
Ardente que nem brasa,
Para levar seu ganha-pão.

Nesta terra seca e castigada,
Plantamos e tentamos colher,
A vida aqui, apesar de sofrida,
Preenche de felicidade o ser.

Esta minha terra, boa e generosa,
Colhemos aqui feijão, milho e mandioca,
Amendoim pra fazer paçoca,
E a cana para alimentar a criação.
Acordo de manhã cedinho,
Pra tirar o leite da Mimosa,
E o restinho que sobra,
É pro bezerrinho cor de carvão.

Aqui os passarinhos cantam,
Espantando seus males e os meus.
Aqui nasci, sofri. Aqui quero ficar.
Esta terra é um presente de Deus.
Até o dia que eu partir sozinho,
Almejo gozar dos tesouros seus.

(parte III)

De manhã café quente com brevidade,
Um velho radinho de pilha na mesa,
Tocando para matar a saudade
Daquele amor que guardo no coração.

Leite no copo, café no bule,
Cheiro de manhã tranquila.
O amor mora nas minhas coisas,
No meu casebre tão simples,
E junto aos meus animais.
E sempre que olho pra trás,
Relembro a história dos meus parentes:
Meu bisavô que tanto carpiu esta terra,
Para conquistar os seus pertences;
Minha bisavó que cozinhou e lavou,
E os filhos criou, brava e valente.

E aqui tenho minhas riquezas,
Que não guardo em banco,
Nem debaixo do colchão,
Mas sim, impressas na alma,
Armazenadas no coração.

Aonde eu for, carrego a emoção
De relembrar da minha terra,
Que me acolhe e me acoberta,
Independentemente da situação.

Sou caipira com orgulho,
Sem ter vergonha de quem sou.
Nasci, me criei, e quero morrer
Sobre esta terra, aqui do interior.

por Júnio Liberato

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