Lírios

(parte I)

Assim como é grande a beleza dos lírios,
Descubro e redescubro-me tão confuso,
Como se fosse um reles intruso
Às portas espessas do seu coração.

Se de fato me conheces por inteiro,
Responde àquilo que me consome;
Não me deixes em silêncio nem me abandones;
Dize-me apenas: sim ou não.

Quando a lua se põe dentre as montanhas,
Mudo e incerto, em ansiedades intensas,
Meu travesseiro aprende teu nome,
Antes mesmo que eu adormeça.

(parte II)

Minha mente hiberna nas cicatrizes;
Só quando sonho me salvo, me curo,
Pois assim viajo para outro mundo
Que, por hora, me satisfaz.

Ao despertar da manhã impiedosa,
Entristeço ao perceber que tudo era névoa,
E o único destino que me resta
É fechar os olhos outra vez.

Envenenado pela esperança imortal,
Volto então intrigado a dormir,
Na esperança de rever o instante,
O mesmo sonho que me apazigua.

(parte III)

Com a serenidade de uma princesa
E a doçura de uma jovem donzela,
És tu quem perturba meus sentidos,
Sem ao menos perceber que o fazia.

Quando saio do meu aconchego,
Não sei em outra coisa pensar,
Senão no teu suave caminhar
E na delicada luz que te acompanha.

E atraído pelo teu perfume,
Voo como um charmoso beija-flor,
Desejando repousar em teu afeto
E provar o mel dos teus lábios.

 (parte IV)

Em toda a vastidão deste mundo,
Escolhi a dedo apenas uma,
Entre incontáveis rostos, máscaras e caricaturas,
Para ser minha grande paixão.

E sei que nunca haverá, de fato,
Outra presença que me alcance assim,
Com tamanha delicadeza capaz
De domar eternamente o meu coração.

Fui o escolhido pelo destino,
E já não caminho sem direção;
Fiz de ti minha eterna eleição,
Meu descanso e meu abrigo.

(parte V)

Mas a mera ilusão cênica, erguida
Pela minha própria esperança,
De um amor ao qual não se alcança,
Só partiu em mil pedaços meu ser.

Quase ébrio, imerso em tristeza,
Tento inutilmente das cinzas me reerguer,
Na tentativa de renascer inquebrável,
Reunindo todos os mil pedaços espalhados.

Juntar-me-ei a ti, agora minha metade,
Para encontrar então o meu propósito,
Esquecer o ódio, tolo e sórdido,
Que tantas vezes aprisionou minha alma.

(parte VI)

Saberei, desde o princípio,
Como desejo recordar meus dias.
Guardarei comigo apenas as alegrias
E aquilo que o tempo jamais poderá levar.

Haverá incontáveis infinitos,
Milhares de novos amanheceres,
Cabelos brancos, vastos saberes,
Celebrando cada instante que nos restar.

Somos duas metades imperfeitas
Que se completam no encontro;
E daquele vazio em confronto
Para sempre iremos nos afastar.

(parte VII)

Percorreremos esta vida inquieta,
Na velocidade quase da luz;
E o amor que nos conduz
Suavizará as marcas do tempo.

E aqueles desentendimentos comuns
Serão apenas breve nevoeiro,
Que o vento sopra ligeiro,
Sem apagar nossa ternura.

Contigo ao meu lado,
Tudo encontra seu verdadeiro sentido;
E, se um dia eu estiver ferido,
Teu amor será meu refúgio.

Então todas as notas da existência
Ganham brilho, um tom mais vibrante,
E, quando tocadas ao mesmo instante,
A própria vida se tornará melodia.

por Júnio Liberato

Compartilhe esse post:

Respostas de 2

  1. Ai, a saudade! É algo que nos confunde, nos faz questionar o que poderia ser diferente, e sonhar enquanto dorme é o único espaço seguro em que a falta não dói tanto. O dormir se torna o lugar em que tudo é possível🥺🌹

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Relacionados

Um poema emocionante sobre a vida no campo, o orgulho das raízes, o amor pelos animais, a família e as verdadeiras riquezas do interior.
Há histórias impossíveis que se vivem a sós, no silêncio de nossas mentes, sem que hajam meios de ganhar cor, vida e liberdade.
Meta descrição: Em um delicado diálogo entre um homem e um canarinho, este poema celebra a amizade, o poder da música e a esperança de um amor verdadeiro capaz de vencer a solidão.