Família é porto seguro, o nosso bem mais precioso no que tange às instituições sociais. É aquilo que fica quando todo o resto se vai; um porto seguro no qual sempre poderemos atracar após longas tempestades no alto-mar da vida. Não obstante, como nem tudo são jardins perfumados, é necessário prevenir-se de possíveis contratempos e compreender que há regras e deveres a serem seguidos por ambas as partes, para que a convivência não se torne um campo de guerra, repleto de armadilhas e ciladas.
Diversas famílias se dividem pela falta de interação entre seus membros. Os vácuos criados pela tecnologia e os abismos advindos do frenesi cotidiano minam, em sua completude, o tempo de qualidade entre seus pares. Tantos casamentos terminam pela falta de cuidado com o outro e consigo mesmo; a rotina repetitiva e a ideia de estagnação acabam por enfraquecer o equilíbrio da relação. A arte da conquista não dura por um tempo determinado, trata-se de uma empreitada diária. O “até que a morte os separe” parece ser apenas um jargão repetitivo utilizado nas cerimônias matrimoniais, que acaba por cair no esquecimento ao longo dos anos de convivência. Apaixonar-se não é a linha de chegada; casar-se não é o feito final. Pelo contrário, a partir desse estágio, tudo se torna mais difícil: o convívio passa a ser direto e diário, o elemento esporádico cai no desuso; portanto, estar comprometido com o bem-estar conjugal é basilar para que tudo flua da melhor forma possível.
Reforçar esses laços e mantê-los sempre firmes, zelando para que haja harmonia e bom convívio, é dever de todo cidadão que preza pelas origens que lhe alicerçaram até alcançar a vida adulta, com caráter e valores caros, que nenhum contratempo é capaz de remover. A psicologia é bem útil quando nos orienta a manter uma comunicação sempre positiva, munindo-nos de métodos de comunicação pacífica e não violenta. Mas não se engane: ser positivo, altruísta e conciso na comunicação não significa permitir a transposição de limites. Sempre há uma barreira a separar o tolerável do não saudável. Entretanto, algumas falhas psicológicas fazem com que percamos o senso detector desses extremos. O “conhece-te a ti mesmo”, máxima popularizada por Sócrates, concerne a um lembrete, um convite à autorreflexão. Mergulhar introspectivamente, entender quem se é, o que se almeja, quais são os limites e qual é a própria essência.
Não é plausível deixar de lado o bom senso na busca descontrolada e patológica por agradar a todos. Este não é o nosso dever. Saber dizer não é demonstrar respeito e honestidade na empreitada do convívio. Saber dizer não é jogar limpo, é ser passível de empatia, no sentido mais amplo do termo. A negativa é libertadora: alforria-nos das amarras do anseio por aprovação. Dizer sim demasiadamente são sintomas florescentes de alguém enfermo, a mendigar aceitação a qualquer custo, sem priorizar sua saúde e bem-estar pessoal. Dizer sim exorbitantemente é tornar-se escravo do outro sem que se perceba; pequenas nesgas de frustração vão se acumulando até se tornarem um fardo insuportável. Dentro da instituição familiar, em todas as suas instâncias, não é diferente. É necessário impor-se, dizer nãos libertadores, que mantêm a chama acesa, que soam como atos de amor e confiança. A vida não é feita inteiramente de sins; é composta por nãos intercalados.
A neurociência alega que alguns indivíduos são capazes de influenciar e controlar naturalmente os sentimentos abstratos, tendo certa jurisdição sobre suas emoções, sobre seus desígnios e impulsos. Esse fenômeno, aqui entendido como intercâmbio emocional, é explorado por certos atores sociais como forma de se beneficiar dos mais vulneráveis, carentes e pouco instruídos no campo da inteligência emocional. O narcisista é o pior deles: orquestra e intercala, desfila entre bajulações e sabotagens, domina o outro de forma singular, causando dependência e instalando a ideia de necessidade em sua vítima, que, pouco munida de ferramentas emocionais, permite-se viver numa relação que se torna seu mundo, sua bolha, sendo incapaz de se libertar. Contudo, esse modelo predatório de relacionamento nada mais é do que traços de personalidade estruturados em torno de um ego fragilizado, que exige admiração constante para evitar o colapso interno. Tanto nos relacionamentos conjugais quanto no ambiente familiar, é de suma importância saber que o ato de cuidar, ouvir, abraçar e colocar as cartas na mesa deve ser constante e indispensável.
Família é sagrada. É um presente confiado por Deus. Nutre-nos, a fim de que cresçamos em estatura e caráter, em moldes concretos e abstratos. No Éden, instituiu-se a primeira família da história, dando origem a toda a humanidade. Entretanto, manchados pelo pecado, resta-nos munir-nos das ferramentas espirituais, mentais e psicológicas que temos à disposição, com o desígnio de viver com uma baixíssima margem de atritos, desnecessários à nossa saúde mental. O amor — este mesmo que vem se esfriando consecutivamente —, a intolerância e o descuido que marcam o terceiro milênio são aspectos proféticos advertidos nas Sagradas Escrituras. Todavia, há também a promessa de esperança, de transformação e de restabelecimento da ordem cósmica. Deus não nos abandonou; zela por nós cotidianamente através de pequenos atos de cuidado. Acontece que estamos, dia após dia, menos sensíveis à divina luz, invisível aos olhos físicos; só podemos enxergá-la com os olhos da fé, artifício pelo qual sobrevivemos, que nos sustenta e restaura a cada segundo neste plano existencial. Amar os vossos inimigos é amar, primeiramente, a si mesmo, o seu maior inimigo: o eu, o ego, aquele que busca sempre estar em evidência, que procura priorizar suas próprias vontades. Não se engane: destaca-se muito mais quem prioriza o seu semelhante do que aquele que se exalta em seus próprios feitos. Tudo depende do ponto de ótica e sob a iluminação de quais holofotes se busca enxergar as pessoas.
A família é o nosso maior tesouro. Que saibamos ser valorosos guardiões desta tão sublime preciosidade.
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Texto profundo e reflexivo, pontos importantes a ser considerados como análise familiar e base social, emocional e psicológica, tão importantes para o desenvolvimento humano.
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